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Cultura e lazer (Espaço para os admiradores da poesia e escritores, amadores ou não!)





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171 respostas neste tópico

#1 AVE PHOENIX

AVE PHOENIX

    Hardware Expert

  • Colaborador
  • 4675 mensagens

Publicado 10 September 2008 - 03:46 AM

;) LEIA ANTES DE POSTAR NESTA ÁREA! :D

Eu implementei este local e mediante os conteúdos postados até aqui eu pinei o tópico deixando-o em destaque para que todos o apreciem.
Peço aos prezados participantes do fórum para que procurem postar nesta área conteúdos elevados que poderão ser de sua própria autoria ou de pessoas conhecidas no ramo literário DESDE QUE NÃO FIRAM AS LEIS DE DIREITOS AUTORAIS.
Postagens que não obedeçam esses critérios pré-estabelecidos serão apagados sumáriamente e sem aviso prévio!
Tudo que é bom e que eleva à alma humana merece um local de destaque!

Desfrutem com sabedoria! :P

Uma pequena introdução:

" Todos os dias Deus nos dá um momento em que
é possível mudar tudo que nos deixa
infelizes. O instante mágico é o momento que
um SIM ou um NÃO pode mudar
toda a nossa existência."


Paulo Coelho

Editado por AVE PHOENIX, 25 August 2009 - 05:14 AM.

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#2 AVE PHOENIX

AVE PHOENIX

    Hardware Expert

  • Colaborador
  • 4675 mensagens

Publicado 10 September 2008 - 04:52 AM

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

*******************
O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

*******************

... O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso plante seu jardim e decore sua alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ...

William Shakespeare
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#3 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 10 September 2008 - 05:06 AM

Parabéns, AVE PHOENIX.

Inauguraste o tópico com conteúdo de um tema sempre atual e palpitante.

Vamos lá, galera! Participem!

"Uma mãe e sua filha estavam a caminhar pela praia.
Num certo ponto a menina disse:
- Mamãe, como se faz para manter um amor?
A mãe olhou para a filha e respondeu:
- Pegue um pouco de areia e feche a mão com força...
A menina assim o fez e reparou que quanto mais forte
apertava a mão, com mais velocidade a areia escapava.
- Mamãe, assim a areia cai!
- Eu sei, agora abra completamente a mão...
A menina assim o fez, mas veio um vento forte e levou
consigo a areia que restava na sua mão.
- Assim também não consigo mantê-la na minha mão!
A mãe sempre a sorrir disse:
- Agora, pegue outra vez um pouco de areia e mantenha a mão semi-aberta como se fosse uma colher...
bastante fechada para protegê-la e bastante aberta para lhe dar liberdade.
A menina experimenta, vê que a areia não escapava da mão e estava protegida do vento.
- É assim que se faz durar o amor.
Se você quer muito uma coisa deixe-a livre...
Se ela voltar será sua para sempre, se não é porque nunca foi de verdade.
A liberdade é o espaço que a felicidade precisa!"

#4 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 10 September 2008 - 09:51 AM

Removendo para cá, meus tópicos pertinentes:

Pesadelo de Vida

by richardmatos

E era uma vida, um lugar,
De um tempo qualquer.
E era um canto, uma esquina,
De uma vida indefinida,
Sem tempo, sem fé.

E o tempo se esvaía
E estava escuro, chovia.
E havia musgos e limos
E a brisa açoitava fria
Por caminhos incertos.

Como no pó volúvel
De uma ampulheta agonizante
O espírito fluía,
Enquanto no esquife,
Ainda quente,
Deitavam no corpo
Uma concha d’água fria...

E era um sonho de morte!
Daquele que arrepia.
Ou era só um pesadelo?!
Um pesadelo de vida...


Faz-de-conta que Sou Normal

by richardmatos

Que sou como todo o mundo.
Que chora; que ri
Que sonha; que ama.

Faz-de-conta que não sou louco
Que não sofro de esquizofrenia
Nem mesmo sinto agonia.
Que não tenho paranóias
Que meus fãs não me perseguem
Só por ser popstar, um artista
Embora ignorem que seja autista.

Faz-de-conta que neste agora
Estou a escrever uma bela poesia
Ou a recompor a 5ª Sinfonia
Seja neste momento de euforia,
Em qualquer outra hora
Ou em um outro dia...

Faz-de-conta que exista alguém
Que não se importe com esta loucura
E até goste do enredo, da estrutura
Destes versos sem métrica e melodia
E que não perceba que hoje não é hoje
Mas que hoje é outro dia...

Faz-de-conta que mesmo sendo normal,
Nunca nada disto escrevi.
Tudo não passou de fértil imaginação
De pura fantasia ou mera alucinação
Seja dos meus gentis leitores
Ou ainda de zombaria de
Espíritos intuídos por meus mentores...


O Túnel

by richardmatos

Há um túnel.
Extenso!
Profundo!
De paredes coloridas.
Que atravessa rochas
E perfura o mundo.

Gira, transfigura-se,
Alternando suas cores,
Seus pigmentos
Cintilantes e multicoloridos.
Que hipnotiza
E a ele nos gruda.

Ora nos faz deslizar
E cair em suas trilhas.
Também nos prende
Em suas teias.
Outras vezes nos imobiliza
Apenas com o seu esplendor.

Não se avista um fundo.
Há, todavia,
Um caminho para ele
Que poucos
Têm coragem
De percorrer...
Mas que muitos
Gostariam de fazê-lo.

Há um túnel.
Extenso!
Profundo!
Mas existe também
Um caminho
E uma bússola...

A saída?
Ora...
Encontre primeiro
O túnel...


Eu sou...

by richardmatos

A madeixa que te embrulha,
Tecendo em ti o meu casulo.
Envolvente,
Acosso-te com o meu abraço
E penetro a tua intimidade,
Invadindo tua mente
E o teu corpo por inteiro.

Subjugo-te com os meus caprichos
E deixo-te inerte e sem espaço,
Seja no meio de um caminho
Ou no fim de uma estrada,
Aí estou! A exigir, a impor.

Aporto de repente,
Sutil, de mansinho,
E sem se quer apresentar-me.

Omito o meu nome,
A minha origem;
O porquê das ralas vestes,
Da minha compulsiva volúpia.

Ávida, impulsiva e misteriosa,
Apresso-me em envolver-te
Com o meu querer
E atormento-te horas a fio,
Seja ao meio dia
Ou à meia noite,
Até quando, em sussurros,
Deixo-te atônito
Com o meu insólito desejo:
Registra e divulga esse momento
E jamais o guarde só pra si
Pois ele poderá te sufocar.
Afinal, não quero calar:
Eu sou A Poesia.


Do Alto do Mirante

by richardmatos

Aqui, bem do alto,
Ouço o teu silêncio que chora.

Escuto também outras vozes
De gente que te julga triste;
De gente que te chama de louco
- e essas soam mais fortes.

E... ontem, pouco mais que ontem
Esforcei-me para te fazer feliz...


O Galo Mimoso

by richardmatos


Do Oiapoque ao Chuí
ninguém uviu falá
históra mais marcante
qui a qui vô lhes contá:

Sucedeu há muito tempo
no sertão do Seridó,
terra de cabra macho
quinem todos de Caicó.

P’ru ironia do distino
o nomi dele era Mimoso,
mais de manso num tinha nada
apois quiera valente e foigoso.

Muito franzino de corpo
mais ligêro de pernas e asa
muita gente ele enxotava
de vorta pra suas casa.

De suas proeza
seu Véi César se encantava
e dona Formosa, feliz,
num sabia se ria ô chorava.

Nenhum bicho ô gente
cum ele tinha vêis,
apois o penudo era fio
de galo carijó e galinha pedrês.

Seu Juca, Vaca Véia,
Marreta e Besourão,
sempre assustados, gritavam:
prende o galo, Torrão!

Amorosa, paciente, acudia
Pegóba, que aguniado isclamava:
Num tenho medo de assombração
e muito meno de alma penada!

Mái veio um dia um falatoro
qui a todos ismoreceu:
Minha gente!, Mimoso sumiu!
foi cumido por Zé Bedêu.


NOTA DO AUTOR:
História baseada em fatos reais. Acreditem!



A Última Parada

by richardmatos

Entre embarques e desembarques,
Viajava a Vida pela estrada sem fim.

Ansiosa, hoje apenas escuta
O tilintar da última moeda
Na caixa registradora
Enquanto distanciada observa
Os vultos à estrada
Que vão ficando para trás.

Entre embarques e desembarques,
O ontem, o hoje e o amanhã
Misturam-se e se confundem.
Tal qual numa gangorra,
Ora vê o Amanhã “por cima”,
Noutro instante,
É lá que avista o Ontem.

Já não distingue a tristeza,
As amarguras ou alegrias.
Apenas uma leve lembrança –
Que não ousa chamar saudade –
Teima em roçar-lhe a face enrijecida.

Entre embarques e desembarques,
Já é Primavera.
Absorta, acompanha pela janela
O vendaval de ramos levados pelo vento e
O cair nostálgico de velhas folhagens,
Substituídas por roupagens exuberantes.

Entre embarques e desembarques,
Já é Outono.
Percebe que depressa passou o dia
E que terminou a colheita.
Que é chegada a hora.
Agora desperta, a Vida distende o cordão.
Soa o sinal.
Pede passagem.
Tem pressa.
Eis que se aproxima A Última Parada...


Pesadelo de Vida

by richardmatos

E era uma vida, um lugar,
De um tempo qualquer.
E era um canto, uma esquina,
De uma vida indefinida,
Sem tempo, sem fé.

E o tempo se esvaía
E estava escuro, chovia.
E havia musgos e limos
E a brisa açoitava fria
Por caminhos incertos.

Como no pó volúvel
De uma ampulheta agonizante
O espírito fluía,
Enquanto no esquife,
Ainda quente,
Deitavam no corpo
Uma concha d’água fria...

E era um sonho de morte!
Daquele que arrepia.
Ou era só um pesadelo?!
Um pesadelo de vida...


O Barco

by richardmatos

Na leveza
Do vento
Fragmentos do aroma
Efêmero,
Da alquimia
Do bom tempo...

Nas vagas
Enfurecidas
Os dialetos e o silêncio
Dos hipócritas.

Da proa,
A natureza fenecida;
O canto soturno
Das vozes;
O lamento purpúreo
No flamejar
De chispas
Sobre as odes.
Sob murmúrios...

#5 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 11 September 2008 - 08:08 PM

Bem, amigos:

Buscando situar-me melhor no que poderia compreender os termos "Cultura" e "Literatura", empregados aqui
pelo nosso cortês amigo e Moderador, AVE PHOENIX, e assim melhor explorar - e utilizar disciplinadamente -
este nobre espaço gentilmente cedido por ele, fui à Wikipedia à procura de auxílio, tanto para mim,
quanto, de repente, para todos os demais usuários do Baboo interessados no assunto, deixando, obviamente, o
parêntese aberto às correções e/ou inclusões que os amigos queiram porventura inserir.

1. CULTURA: "é um termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e diferente
especificidade. São práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço/tempo. Se
refere a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que permeiam e "preenchem"
a sociedade. Explica e dá sentido a cosmologia social, é a identidade própria de um grupo humano em um
território e num determinado período."

Assim, nesse "braço" CULTURA, do Tópico "Cultura e literatura...", do Fórum "Off-topic", poderíamos transcrever nossos
trabalhos ou quaisquer pensamentos/consolidações nacionais e regionais, tais como:

1.1 jargões (expressões): utilizados por nossos conterrâneos ou de outras regiões que tivemos o
privilégio de conhecer, tipo: "Vixe Maria!...o cara é paid'égua, seu minino!" - "Valei-me, nossasinhora"!
Diz isso não, pelamordideus!" - "mairmió que isso, só rapadura preta cum farinha...";
1.2 crenças, ditados populares, "medos", mitos, etc;
1.3 música/ritmos: afoxé, carimbó, forró, sertaneja:
1.4 histórias marcantes do povo;
1.5 filmes que marcaram nossas vidas;
1.6 teatro;
1.7 "causos";
1.8 folclore
OUTROS: ajude, aqui, pessoal!!!

2. LITERATURA: "1) a arte de compor ou estudar escritos
artísticos; 2) o exercício da eloquência e da poesia; 3) o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época;
4) a carreira das letras."

Aqui, na outra âncora do Tópico, de repente, está mais fácil de assimilar, acho.

2.1 resenha de livros de nossa autoria ou de outros;
2.2 oficinas, concursos, dos quais participamos, ou não;
2.3 escritores emergentes;
2.4 livros, etc.,que são best-sellers;
2.5 crônicas;
2.6 contos;
2.7 reflexões (filosóficas ou não);
2.8 poemas.

É... Acho que já dei um bom empurrãozinho aqui no Tópico.

Vamos, preencher este espaço, galera!

"inté mais""

#6 AVE PHOENIX

AVE PHOENIX

    Hardware Expert

  • Colaborador
  • 4675 mensagens

Publicado 11 September 2008 - 10:14 PM

Excelente esse seu "empurrãozinho" richardmatos! (Y)
Quando eu dispuser de tempo livre e com a cabeça mais serena farei algumas remodelações no tópico.
Thanks a lot! :D
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#7 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 12 September 2008 - 10:00 PM

O Inspetô biato (um Continho)

Lá pur vorta dos ano setenta eu trabalhava no Bank Brasil numa cidade do interiô do Pernambuco, quase no final daquela tira do dito istado.

Nóis, bancaro, morava numa pensão da Dona Ixpedita, prumode qui era mai barata, pra sobrá dinhêro pras cachaça.

Di vêis im quando chegava um inspetô no banco, pra vê si num tinha neguim misturando o dinhêro dele cum o do banco ô fazendo coqué coisa errada e aquela otoridade mitia um medo danado narrente!

Pôco dispôis dele tá lá, si achegô pra eu e dixe: você aí! Fuma?
- Fumo, má si o sinhô quisé eu dêxo! Dixe logo aquilo pra mostrá respeito pro homi.
- Eu só quero um cigarro... arrespondeu o chefe, o qui mi dexô todo incabulado.
O inspetô era diferente di todos os ôtro qui nóis conhecia, apôis qui gostava de fazê cúpi a tardinha e, adispôis, lá pras seis hora da tarde ia pra missa.

Aquele rituá deferente chamava logo a atenção do pessoá: inspetô católico! Intonce deve sê um cara legal e num vai incomodá muito arrente não! Assim imaginô logo a cambada toda de negim inrresponsávi...

Certa vêis, quando tava a turma toda jantando (era um magote duns oito) numas quatro mesa incangada umas nas ôtra, sendo qui a do homi ficava separada da ralé e um pôco mai adiante, um colega do banco, sabendo qui eu era mêi dismantelado e qui era do Juazêro do Norte, terra di meu Padim Pádi Ciço, oiô pra eu e sapecô a pergunta, só pra vê o ispanto qui ia causá no inspetô biato:
- Ô Richard! tu qui é lá do Juazêro, tira aqui uma dúvida darrente:
Dixe qui a estáuta do Pádi Ciço qui fica lá inriba da Serra do Hôrto, lá no Juá, médi uns trinta metro de artura! É mêrmo verdade, sô?
Oiêi mêi prus lado e vi qui o “inspa” já tava cum as ôiça impé, só pur uvir o nomi do “santo”. Mi arripiêi todo... Mai cuma eu tinha tumado umas e ôtra di apiritivo, arrespondí:
- Bem... a artura certa eu num sei não. Agora digem pur lá qui só pra fazê as duas bola da estáuta si gastô-si mai de cinqüenta saco de cimento!
Atu cutinu, o homi se alevantô da mesa; num quis mai a janta, apontô o dedão na minha venta e saiu resmungano do refetóro.

NOTA DO AUTOR: História baseada em fatos reais.

#8 AVE PHOENIX

AVE PHOENIX

    Hardware Expert

  • Colaborador
  • 4675 mensagens

Publicado 17 September 2008 - 05:24 AM

A Bunda, que Engraçada


A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda

*********

A noite dissolve os homens


A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

********

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabe sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

*********

Além da Terra, além do Céu


Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade
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#9 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 18 September 2008 - 04:15 PM

Adão foi Feito de Barro

by richardmatos

Eu preferia ter sido feito de barro
Como de barro foi feito Adão,
Nos tempos idos da “perfeição”
Quando tudo era singelo e bizarro.

Ah, quanta pureza e nostalgia...
Da coisa simples e estereotipada
Do que só valia o que a gente via...
Não o faz-de-conta que sou psicopata.

Era Céu e Inferno e, no meio, o nada...
Alguns tinham por atalho o purgatório
Outros, entretanto, só o falatório...
Das más línguas ferinas e enfadadas

Da multidão que esperava para ver
O que pior com o coitado iria surgir
No breve, obscuro e tenebroso porvir
Adrede preparado e só pra fazer sofrer

O desditoso que se aventurava esperar
Para só depois porventura se arrepender
De todo o mal que pudera arremeter
Contra os incautos que fizera acreditar.

Ah, se de barro tivesse sido feito eu...
Para não incucar com a física quântica,
Que para ela tudo é questão de semântica
E no mais, nada de matéria... só o breu.

Como ficava simples e de bom agrado
Acreditar que tudo era muito limitado:
Que só havia Deus e o capeta imantado
E o resto era pensamento mal-agourado.

Já hoje a coisa pra muito se modificou:
Temos que entender que tudo pra trás ficou;
Que o mundo é só questão de possibilidade;
Que posso ser todo o bem ou só maldade;

A realidade, impermanente, se modifica;
Nós temos o livre-arbítrio, a escolha:
Seguimos no curso do rio que se vivifica
Ou nos tornamos um mero saca-rolha.

#10 richardmatos

richardmatos
  • Participante
  • 698 mensagens

Publicado 21 September 2008 - 08:41 AM

A Companheira que Veio do Alto


by richardmatos


Desde a nossa vida intra-uterina (ponto-de-corte menos questionado pelos cientistas de plantão) e muito mais além..., já nos cansávamos de tanto ouvir falar na imprescindível e salutar necessidade do acasalamento entre os seres (de sexo oposto, diga-se de passagem):

Gn 9:1 Abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra”;

“Mt 19:6 Assim já não são mais dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem
”.


Mas Deus – ainda acompanhando essa premissa sectária – certamente não “sugeriu” a união com o fito tão-somente de povoar a terra e/ou minimizar o tédio que se instalaria no dia-a-dia dos solteiros do globo. O carro-chefe de tudo teve, também, por alavancagem a imprescindível instituição tácita da cumplicidade entre os pares.

Mister se fazia pactuarem-se pontos de vista; desenhar projetos; formatar planos de trabalho e táticas bélicas, de sobrevivência; arquitetar e executar encargos e idéias nem sempre convenientes ao conhecimento do domínio público. Dividir responsabilidades e riscos, numa palavra.

Cumplicidade. Sim, cumplicidade (conivência). Este, por si só, é o vernáculo mais sucinto e apropriado para justificar a expressão registrada lá em Mateus 19:6 “... não são mais dois, mas uma só carne...”. Para tornar ao menos razoável a tolerância e o sentido do consórcio entre homem e mulher.

Então aportamos neste plano terrestre. Viemos sozinhos (na maioria das vezes, lógico. Lógico?) e sem maiores “compromissos”, até então. Pouco, ou quase nunca, nos recordávamos do plano, da “recomendação” Divinos, exceto porquanto inseridos indelevelmente no nosso id e latentes na memória pretérita.

Paulatinamente, todavia, a parte outrora submersa do iceberg insistia em emergir e, uma vez mais, ouvíamos a voz dos profetas, recordando-nos o pacto feito com o Senhor. Crescêramos e, por conseguinte, era chegada a hora. Urgia, assim, iniciarmos a caminhada em busca de nossa alma-gêmea. Da nossa outra metade.

Enfim, sós...

E a cumplicidade não tardou a mostrar-se utópica e efêmera. Surgiram, do nada, componentes e misturas “químicas” inteiramente estranhas e dissociadas de todos os planos e expectativas originais, tais como: O narcisismo, o ciúme, o estresse e tantos outros contratempos, revelando, assim, o mau planejamento e o nosso despreparo para levarmos a efeito a empreitada outrora outorgada aos nossos ancestrais. Aliás, nem mesmo eles o conseguiram conforme o acordado, haja vista depreender-se que quando Deus disse “... e enchei a terra...”, quis referir-se, salvo melhor juízo (D’Ele), a enchê-la de filhos, netos, bisnetos, enfim, de mais e mais gerações, ao passo que muitos dos nossos patriarcas a encheram foi de concubinas e outras “iguarias” (...).

Com isso, temos hoje, dentre outras “seqüelas”, casais que dividem a mesma cama, vivem sob o mesmo teto e, às vezes, comem até no mesmo prato, mas, em contrapartida, continuam sós, tal qual inquilinos de apartamentos em condomínios fechados, que, embora vizinhos e “cumprimentando-se” diuturnamente, vivem como o bicho-da-seda: hermeticamente fechados em seus casulos.

Assim, a cumplicidade, sadia e necessária, foi vencida e substituída pela disputa da hegemonia. A “queda-de-braço” é nos dias de hoje o esporte dominante. A corrida pela incansável e irracional conquista de mais e mais espaço; pela ocupação ilegal do “terreno” alheio e, sobretudo, a formação de verdadeiras ilhas entre os cônjuges, constituem a atmosfera que oxigena os relacionamentos.

Com efeito, não há mais interesse e tolerância na abordagem das questões mais singelas entre os casais. As oportunidades oferecidas pelos chás-da-tarde ou pelas ceias, por exemplo, perderam a vez para os programas de televisão, internet ou simplesmente para o recolhimento dos indivíduos, cada qual encastelado em suas próprias redomas.

A conversa franca e amistosa que, pro ativa, coibia esses descompassos e harmonizava a vida a dois, extrapolou os limites do “doméstico” e passou à arena dos divãs terapêuticos, dos bate-papos virtuais ou dos barzinhos de esquina, afunilando-se a ponto de bater às portas das Varas de Família.

É preciso, pois, conversarmos novamente com Deus. Só Ele seria o instrumento eficaz e o foro especializado para a repactuação do mútuo original.






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