Removendo para cá, meus tópicos pertinentes:
Pesadelo de Vida
by richardmatos
E era uma vida, um lugar,
De um tempo qualquer.
E era um canto, uma esquina,
De uma vida indefinida,
Sem tempo, sem fé.
E o tempo se esvaía
E estava escuro, chovia.
E havia musgos e limos
E a brisa açoitava fria
Por caminhos incertos.
Como no pó volúvel
De uma ampulheta agonizante
O espírito fluía,
Enquanto no esquife,
Ainda quente,
Deitavam no corpo
Uma concha d’água fria...
E era um sonho de morte!
Daquele que arrepia.
Ou era só um pesadelo?!
Um pesadelo de vida...
Faz-de-conta que Sou Normal
by richardmatos
Que sou como todo o mundo.
Que chora; que ri
Que sonha; que ama.
Faz-de-conta que não sou louco
Que não sofro de esquizofrenia
Nem mesmo sinto agonia.
Que não tenho paranóias
Que meus fãs não me perseguem
Só por ser popstar, um artista
Embora ignorem que seja autista.
Faz-de-conta que neste agora
Estou a escrever uma bela poesia
Ou a recompor a 5ª Sinfonia
Seja neste momento de euforia,
Em qualquer outra hora
Ou em um outro dia...
Faz-de-conta que exista alguém
Que não se importe com esta loucura
E até goste do enredo, da estrutura
Destes versos sem métrica e melodia
E que não perceba que hoje não é hoje
Mas que hoje é outro dia...
Faz-de-conta que mesmo sendo normal,
Nunca nada disto escrevi.
Tudo não passou de fértil imaginação
De pura fantasia ou mera alucinação
Seja dos meus gentis leitores
Ou ainda de zombaria de
Espíritos intuídos por meus mentores...
O Túnel
by richardmatos
Há um túnel.
Extenso!
Profundo!
De paredes coloridas.
Que atravessa rochas
E perfura o mundo.
Gira, transfigura-se,
Alternando suas cores,
Seus pigmentos
Cintilantes e multicoloridos.
Que hipnotiza
E a ele nos gruda.
Ora nos faz deslizar
E cair em suas trilhas.
Também nos prende
Em suas teias.
Outras vezes nos imobiliza
Apenas com o seu esplendor.
Não se avista um fundo.
Há, todavia,
Um caminho para ele
Que poucos
Têm coragem
De percorrer...
Mas que muitos
Gostariam de fazê-lo.
Há um túnel.
Extenso!
Profundo!
Mas existe também
Um caminho
E uma bússola...
A saída?
Ora...
Encontre primeiro
O túnel...
Eu sou...
by richardmatos
A madeixa que te embrulha,
Tecendo em ti o meu casulo.
Envolvente,
Acosso-te com o meu abraço
E penetro a tua intimidade,
Invadindo tua mente
E o teu corpo por inteiro.
Subjugo-te com os meus caprichos
E deixo-te inerte e sem espaço,
Seja no meio de um caminho
Ou no fim de uma estrada,
Aí estou! A exigir, a impor.
Aporto de repente,
Sutil, de mansinho,
E sem se quer apresentar-me.
Omito o meu nome,
A minha origem;
O porquê das ralas vestes,
Da minha compulsiva volúpia.
Ávida, impulsiva e misteriosa,
Apresso-me em envolver-te
Com o meu querer
E atormento-te horas a fio,
Seja ao meio dia
Ou à meia noite,
Até quando, em sussurros,
Deixo-te atônito
Com o meu insólito desejo:
Registra e divulga esse momento
E jamais o guarde só pra si
Pois ele poderá te sufocar.
Afinal, não quero calar:
Eu sou A Poesia.
Do Alto do Mirante
by richardmatos
Aqui, bem do alto,
Ouço o teu silêncio que chora.
Escuto também outras vozes
De gente que te julga triste;
De gente que te chama de louco
- e essas soam mais fortes.
E... ontem, pouco mais que ontem
Esforcei-me para te fazer feliz...
O Galo Mimoso
by richardmatos
Do Oiapoque ao Chuí
ninguém uviu falá
históra mais marcante
qui a qui vô lhes contá:
Sucedeu há muito tempo
no sertão do Seridó,
terra de cabra macho
quinem todos de Caicó.
P’ru ironia do distino
o nomi dele era Mimoso,
mais de manso num tinha nada
apois quiera valente e foigoso.
Muito franzino de corpo
mais ligêro de pernas e asa
muita gente ele enxotava
de vorta pra suas casa.
De suas proeza
seu Véi César se encantava
e dona Formosa, feliz,
num sabia se ria ô chorava.
Nenhum bicho ô gente
cum ele tinha vêis,
apois o penudo era fio
de galo carijó e galinha pedrês.
Seu Juca, Vaca Véia,
Marreta e Besourão,
sempre assustados, gritavam:
prende o galo, Torrão!
Amorosa, paciente, acudia
Pegóba, que aguniado isclamava:
Num tenho medo de assombração
e muito meno de alma penada!
Mái veio um dia um falatoro
qui a todos ismoreceu:
Minha gente!, Mimoso sumiu!
foi cumido por Zé Bedêu.
NOTA DO AUTOR:
História baseada em fatos reais. Acreditem!
A Última Parada
by richardmatos
Entre embarques e desembarques,
Viajava a Vida pela estrada sem fim.
Ansiosa, hoje apenas escuta
O tilintar da última moeda
Na caixa registradora
Enquanto distanciada observa
Os vultos à estrada
Que vão ficando para trás.
Entre embarques e desembarques,
O ontem, o hoje e o amanhã
Misturam-se e se confundem.
Tal qual numa gangorra,
Ora vê o Amanhã “por cima”,
Noutro instante,
É lá que avista o Ontem.
Já não distingue a tristeza,
As amarguras ou alegrias.
Apenas uma leve lembrança –
Que não ousa chamar saudade –
Teima em roçar-lhe a face enrijecida.
Entre embarques e desembarques,
Já é Primavera.
Absorta, acompanha pela janela
O vendaval de ramos levados pelo vento e
O cair nostálgico de velhas folhagens,
Substituídas por roupagens exuberantes.
Entre embarques e desembarques,
Já é Outono.
Percebe que depressa passou o dia
E que terminou a colheita.
Que é chegada a hora.
Agora desperta, a Vida distende o cordão.
Soa o sinal.
Pede passagem.
Tem pressa.
Eis que se aproxima A Última Parada...
Pesadelo de Vida
by richardmatos
E era uma vida, um lugar,
De um tempo qualquer.
E era um canto, uma esquina,
De uma vida indefinida,
Sem tempo, sem fé.
E o tempo se esvaía
E estava escuro, chovia.
E havia musgos e limos
E a brisa açoitava fria
Por caminhos incertos.
Como no pó volúvel
De uma ampulheta agonizante
O espírito fluía,
Enquanto no esquife,
Ainda quente,
Deitavam no corpo
Uma concha d’água fria...
E era um sonho de morte!
Daquele que arrepia.
Ou era só um pesadelo?!
Um pesadelo de vida...
O Barco
by richardmatos
Na leveza
Do vento
Fragmentos do aroma
Efêmero,
Da alquimia
Do bom tempo...
Nas vagas
Enfurecidas
Os dialetos e o silêncio
Dos hipócritas.
Da proa,
A natureza fenecida;
O canto soturno
Das vozes;
O lamento purpúreo
No flamejar
De chispas
Sobre as odes.
Sob murmúrios...